Frida Khalo, Autorretrato con collar de espinas y colibri, 1940
Colette
Um gato é aquele ser impassível que, sem cerimónias, pode instalar-se – a afirmar direitos e intimidades – exactamente sobre o caderno onde o dono está a escrever; mas é também aquele que é capaz de, distraidamente, se passear por cima de montes de papéis espalhados sobre uma secretária sem que o mais pequeno desvio se note depois da sua passagem. (...)
O gato é também aquele ser que nos olha com intensidade mas sem expressão, de forma que nas suas pupilas, mais ou menos dilatadas, apenas podemos descobrir um inteligente espelho de nós próprios e do mundo por trás de nós, ao mesmo tempo que no seu brilho encontramos a lampadazinha de que fala Adams, que devassa os caminhos para os tesouros insuspeitados existentes no nosso íntimo.
Maria Cândida Zamith Silva, A Figura do Gato como Capa para Considerações mais Profundas: Lope de Vega, Hoffman, T.S. Eliot
Peter Blake, The Owl and the Pussycat, 1981
| I |
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The Owl and the Pussy-cat went to sea
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| II |
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Pussy said to the Owl, 'You elegant fowl!
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| III |
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'Dear pig, are you willing to sell for one shilling
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foto retirada daqui
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar?
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Alexandre O'Neill
Atribuído a Rossini.
Enviado à arcadajade pela Joana ![]()

É noite: sobre os telhados de novo
Se perde o rosto redondo da Lua.
Ele, o mais ciumento de todos os gatos,
Olha enciumado para todos os amantes,
O pálido e gordo «Homem da Lua».
Arrasta o seu cio furtivo pelos cantos mais escuros,
Espreguiça-se encosta-se a janelas entreabertas,
Como um frade lascivo e anafado anda
De noite, atrevido, por caminhos proibidos.
Friederich Nietzsche in Assinar a Pele, Antologia de Poesia Contemporânea sobre Gatos, organização de João Luís Barreto Guimarães, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

Dionisius, mosaico de Pela
Durante muito tempo, a disciplina histórica desdenhou a história dos animais: que tinham eles em comum com as paixões humanas, as revoluções, as crises económicas? Havia cavalos bastantes para os cavaleiros, bois diante das charruas, caça para os caçadores, mas os representantes da nossa espécie captavam toda a atenção; só eles sabiam falar, eventualmente escrever, e massacrar-se em nome de grandes ideais. Foi nos anos sessenta, quando surgiram os primeiros gritos de alarme do mouvimento ecologista, que a curiosidade dos historiadores, orientada para múltiplos objectos novos, se dirigiu para um domínio outrora reservado às ciências naturais.
(...)
No Ocidente, na Idade Média, os animais tornaram-se inseparáveis dos homens: alimento, fonte de energia e de matérias primas, mas também companheiros de vida e fonte inesgotável de um maravilhoso nem sempre muito cristão. Contudo, esta proximidade não poupou os animais à violência. No século XIX, depois da revolução agrícola e com a revolução industrial, mais do que nunca escravos para todo o serviço, sofreram o domínio implacável dos donos. «Toda a natureza, escreveu Michelet em Le Peuple, protesta contra a barbárie do homem que menospreza, avilta, que tortura o seu irmão inferior: ela acusa-o, perante Aquele que os criou a ambos.»
A novidade da nossa época é a atenção concedida a todas as espécies, incluindo os animais selvagens em vias de extinção. Talvez seja ainda uma maneira de nos interessarmos por nós-mesmos ou, por outras palavras, pela continuidade entre o animal e o homem.
L' Histoire, nº 338 (tradução da arcadajade)

Ilustração de May Ann Licudine
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