Gatinho recém-nascido
abandonado à beira do caminho
pequeno e pulsante como un haiku
Levaram-no para casa
chamaram-lhe Bashô
poema inédito de Manuel Silva-Terra
Renata Moise
No jardim todo branco
vem defecar
um gato vadio
Masaoka Shiki, em As Cigarras Vão Morrer, Haiku, Uma Antologia, selecção, versões e notas de Manuel Silva-Terra, 2008
Colette
Um gato é aquele ser impassível que, sem cerimónias, pode instalar-se – a afirmar direitos e intimidades – exactamente sobre o caderno onde o dono está a escrever; mas é também aquele que é capaz de, distraidamente, se passear por cima de montes de papéis espalhados sobre uma secretária sem que o mais pequeno desvio se note depois da sua passagem. (...)
O gato é também aquele ser que nos olha com intensidade mas sem expressão, de forma que nas suas pupilas, mais ou menos dilatadas, apenas podemos descobrir um inteligente espelho de nós próprios e do mundo por trás de nós, ao mesmo tempo que no seu brilho encontramos a lampadazinha de que fala Adams, que devassa os caminhos para os tesouros insuspeitados existentes no nosso íntimo.
Maria Cândida Zamith Silva, A Figura do Gato como Capa para Considerações mais Profundas: Lope de Vega, Hoffman, T.S. Eliot
Peter Blake, The Owl and the Pussycat, 1981
| I |
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The Owl and the Pussy-cat went to sea
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| II |
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Pussy said to the Owl, 'You elegant fowl!
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| III |
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'Dear pig, are you willing to sell for one shilling
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foto retirada daqui
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar?
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Alexandre O'Neill
moon phases |