'Gatografias', de Susana Neves, não cumprem uma função documental nem retratam seres inventados, a caminho de um bestiário surreal. São mais desertos de gatos, cordilheiras e florestas, descobertos num gato sem cenário.

Emile Chambon, La clé des songes
A MEIO DE UM POEMA DE RITSOS
Aqui até os gatos são diferentes,
bravos, pacientes, mudos,
não esfregam o seu focinho no nosso cotovelo,
ficam-estáticos nos nossos joelhos e estudam
estudam a morte,
estudam a tristeza,
estudam a vingança, a determinação,
estudam o silêncio e o amor,
estudam a vida dentro dos nossos olhos,
os não-acarinhados,
os bravos gatos
os silentes gatos de Macrónissos.
E esta lua de Agosto que pende sobre nós
é como a grande palavra que não foi dita
marmorificada na garganta da noite.
Giánnis Ritsos, tradução de Custódio Magueijo em Antologia, Ed. Fora do Texto, 1993
Gatinho recém-nascido
abandonado à beira do caminho
pequeno e pulsante como un haiku
Levaram-no para casa
chamaram-lhe Bashô
poema inédito de Manuel Silva-Terra
Renata Moise
No jardim todo branco
vem defecar
um gato vadio
Masaoka Shiki, em As Cigarras Vão Morrer, Haiku, Uma Antologia, selecção, versões e notas de Manuel Silva-Terra, 2008
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