Sábado, 4 de Dezembro de 2004

Dois poemas

(e três gatos) de Jorge de Sena. 

O GATO E A GATA

O gato e a gata na cadeira brincam,
abraçam-se mordendo-se nas orelhas,
rebolam-se revoltos - já de amor em cio,
mas são jovens ainda e não chegou Janeiro.
Deles pode dizer-se o que Jesus pediu
pondo os olhos em alvo: devem ser perdoados,
pois não sabem, coitados, o que fazem.


DANTE COM GATO

O pequenino gato abandonado
raquítico, sem graça, tropeçante,
nascido de vadios, esfomeado
em comida e carinho.
Embrulha-se nos passos da gente,
mia atrás de nós,
calor reclama (humano ou animal).
por acidente ou por maldade humana,
tem o focinho sujo de alcatrão
que o vai cegar de um olho pelo menos.
Mas como se agarra
não só à vida:
ao calor que reclama.

L'amor che move il sole e l'altre stelle.

 

Jorge de Sena, Visão Perpétua, Edições 70, 1989

tags: ,
publicado por arcadajade às 18:30
link do post | comentar
correio da arca

espólio da arca

sobre mim

tags

todas as tags

RSS

moon phases