Terça-feira, 15 de Junho de 2004

Para Quin-Quin, o gato

gato4.jpg

Querido Quin-Quin,

Porcaria de Quin-Quin, o gato, que não pára de atacar Noëlle por dar cá aquela palha. Quin-Quin ciumento, Quin-Quin possessivo, Quin-Quin glutão, mas Quin-Quin asseado, excepto quando Quin-Quin se deixa cair na banheira de Noëlle! Quin-Quin que desata a fugir quando eu me irrito, Quin-Quin que foge a sete patas quando eu corro atrás dele, Quin-Quin gorducho, Quin-Quin medricas, Quin-Quin malandro que encontra sempre um esconderijo para abrigar o seu focinho, Quin-Quin gato acima de tudo, que sabe fazer-se amar e gariciar, que sabe arranhar e fazer-se perdoar, que sabe roubar e fazer-se mimar.

De sa fourrure blonde et brune
Sort un parfum si doux qu'un soir
Je fus embaumé pour l'avoir
Respiré une fois rien q'une...

Chat te plaît? É de Baudelaire. Ele tinha razão; deves ter-nos enfeitiçado. Senão, como é que suportaríamos as tuas asneiras? Chat, sem dúvida! Evidentemente, a sua poesia deixa-te frio. Tu és muito mais sensível à beleza dum croquete ou à poesia duma goluseima do que à do alexandrino.

És o último duma ninhada de oito, e levaste bastante tempo para vir ao mundo com o teu olhar maroto e a tua cauda atada. Vou dizer-te: tu és um gato-cão, de tal forma tu és ciumento, ciumento ao ponto de morderes os tornozelos de Noëlle quando ela é mais gentil comigo do que contigo. Incrível!

E eis que brincas ao gato pendurado nos móveis e em cima dos teus donos! Decididamente, não respeitas nada. Se voltares a atacar Noëlle com as garras todas de fora, mando-te para a S. P. A. ou para casa de Brigitte Bardot! Tratava-te das patas!

Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux;
Retiens les griffes de ta patte,
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux
Mêlés de métal et d'agate.

Mais uma vez Baudelaire... um maldito apaixonado pelos gatos. Noëlle poderia muito bem ter escrito para ti essa estrofe. E tu, tu podias mostrar-te mais gentil com ela.

Esse curioso nome de Quin-Quin, donde é que pode vir? Depois de um inquérito sobre a onomástica felina, duas pistas genealógicas permitem julgar o caso do Senhor Quin-Quin.

A primeira afirma que é o diminutivo de Arlequim. Isso agrada-me bastante, por causa de La Double Inconstance, de que interpretei uma cena na minha entrada para o conservatório; por causa, também, da Itália, o país de Arlequim e o meu. E depois o nome fica-te bem, pois és divertido como todos os Arlequins.

A segunda hipótese pretende que Quin-Quin vem do título dum romance que eu gostaria de adaptar ao cinema, mas de que o autor vendeu os direitos aos Americanos: A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, de Jorge Amado. Quincas, Quin-Quin... Estranho.

Mas enquanto eu me empenho em explicar-te as origens do teu nome, tu adormeces em cima do tapete. Então! Não vais fazer outra! Quin-Quin! Quin-Quin?

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphynx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin.

Ainda Baudelaire! Decididamente, ele compreendeu tudo acerca desses adoráveis animais satânicos. E eu, eu compreendi que és o dono desta casa, e contentar-me-ei, para acompanhar o teu ronrom, com uma pequena cantiga de embalar:

Dors mon p'tit Quin-Quin
Papattes en rond et tutti quanti...

Uma garícia para ti.

 

O teu «dono» Serge

Serge Reggiani, Último Correio antes da Noite, Campo das Letras, Porto, 1996

publicado por arcadajade às 22:17
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2 comentários:
De Anónimo a 17 de Junho de 2004 às 11:41
Aposto que não sabias que o Reggiani também era amante de gatos, como nós, hein? :-)jade
</a>
(mailto:jade@iol.pt)
De Anónimo a 17 de Junho de 2004 às 11:13
Lindo e ternurento. E, é bem bonito, o Quin-Quin!LE.
(http://oceanus-occidentalis.weblog.com.pt)
(mailto:oceanus-occidentalis@sapo.pt)

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