Segunda-feira, 5 de Abril de 2004

Em redor de «Rente ao Chão»

olhosdecobre.jpg

Eu já falara nele noutro poema. Dizia então que «o meu amor por esta alminha era materno». Que um homem assumisse poeticamente a maternidade não poderia causar estranheza, mas que tratasse por «alminha» um gato era coisa de que só o diabo se lembraria. De qualquer modo, com ironia ou sem ela (cada qual lê um poema como pode), o que naqueles versos vinha à tona era uma ternura mal disfarçada pelo pequeno persa azul que, num dia de anos, os amigos me trouxeram por terem surpreendido, na maneira como acariciava os gatos deles, uma profunda nostalgia. Realmente, eu tivera uma infância povoada de felinos, e um deles, como contei em A Sereia do Báltico, foi a alegria de muitos dos meus dias. Colhido de surpresa, ora olhava os amigos, ora aquela maravilha que me cabia na mão, com terror e fascinação ao mesmo tempo, pois a partir de então a minha liberdade parecia ameaçada. A minúscula criatura fixava-me com olhos de cobre esfregado de fresco, redondos, imensos, e perante aquele olhar sentia-me à sua mercê - fomos então tratar da instalação. Os amigos haviam previsto tudo: cama, tabuleiro, areias, pratos, alimentos, tudo tinham trazido. Colocámos a cama e as areias no quarto de banho, pratos e tigela foram para a cozinha. Acertámos no nome, e como era do tamanho de uma avelã, e janeiro ia muito frio, acabei por levá-lo para o quarto: primeiro para junto do calorífero, depois para a cabeceira da cama, onde se habituou a dormir, às vezes a minha mão por travesseiro. E fui-o vendo crescer, na certeza de que ao meu lado crescia um exemplar perfeito da sua raça: cabeça robusta, orelhas delicadas, narinas rosadas, pêlo espesso e sedoso; mais exuberante no pescoço e na cauda - era um príncipe oriental que dividia comigo os seus dias, sem coroa e sem mundo para governar, mas de uma beleza que se fosse humana seria insuportável. A alimentação requeria cuidados, e eu era incapaz de qualquer repressão: se não lhe agradava uma coisa dava-lhe outra; acabou por ficar caprichoso, avezado ao frango, à pescada, a esses enlatados que exigiam conta e medida, doutro modo apareciam diarreias, preocupações. Informei-me na clínica como deveria alimentá-lo; procurei livros, que não encontrei. Mandei vi-los de Espanha, de França, e no meio dos que me chegaram, e se repetiam até à exaustão, surgiu um de Desmond Morris, que li com avidez. Também reli poemas do Baudelaire, do Eliot, mas os gatos do Baudelaire não eram gatos eram as suas amantes, e os do Eliot eram caricaturas dos seus amigos. Na Colette, no Léautaud, no Aquilino, no Neruda, aí, sim, havia gatos, como também se encontravam nos desenhos de Steinlen. Passei a viajar e a sair menos; o Micky habituara-se tanto a mim que, quando saía de casa, vinha à porta e olhava-me de tal maneira que, por vezes, acabava por não sair. Pouco me demorava, é certo, mas nunca deixava de me aguardar no regresso; devia conhecer-me os passos, porque entrasse eu tarde ou cedo lá estava ele e os seus olhos imensos - e tão formosos que não sei mesmo se alguma vez vira outros assim. Eram, como já disse, os olhos de deus. Então roçava a cabeça pelas minhas pernas, erguia-se nas patas dianteiras até aos meus joelhos, pedia-me uma palavra, uma festa. Era a minha vez de responder: pegava nele, aconchegava-o nos braços, prometia-lhe nunca mais o deixar só, passava-lhe a mão pela cabeça, pelos flancos, com a polpa dos dedos acariciava-o debaixo do queixo, enquanto uma espessa e rouca e monótona cantilena ia enchendo a noite de alegria. Quase não viajava, pois. Nesse tempo, só me lembro de ter saído duas vezes do país. Da primeira, o Micky ficou em casa dos amigos, mas de início os seus dias foram penosos: não comia, passava o tempo debaixo dos móveis, e só não se lamentava porque era estóico de natureza. Da segunda vez, como sabia do apego que estes animais têm ao lugar onde vivem, ficou sozinho em casa, confiado ao Miguel e à empregada. Creio que passou então melhor, embora sempre estranhado. Como já disse, ele dormia enroscado aos meus pés ou à cabeceira: parecia um ouriço- Durante a noite costumava acordar duas ou três vezes; dava então um pequeno passeio pela cama e, invariavelmente, aproximava o focinho húmido da minha cara, via se respirava, e só depois pulava para os pés, enroscava-se para adormecer de novo. De manhã, por volta das oito, começava a brincar com o meu cabelo, a mão delicada ajudada pêlos dentes agudos, até me despertar; quando eu dava sinais de já estar acordado, saltava para o tapete, e sem impaciência aguardava que me levantasse e lhe desse a primeira refeição. Era na verdade a distinção em pessoa. Os dias foram passando sem nada a distingui-los uns dos outros; o Micky ajudava-me no trabalho, sentado ao lado da máquina quando escrevia, ou no meu colo quando ouvia música; ou então brincava com uma folha de papel amarfanhada atirada ao chão. Um ano havia já decorrido desde que chegara a casa embrulhado no xalito de lã branca, ou até passara mais, pois a primavera estava outra vez no quintal das traseiras, e pousava na macieira, carregando-a de flor. Uma tarde senti uma agitação nas areias do quarto de banho maior que a habitual. Levantei-me e, com espanto, verifiquei que apesar de muito removidas, nas areias não havia sinais de humidade, ou outros. Voltei ao trabalho, e passados instantes senti agitação igual. Aproximei-me, e depois de o Micky se ter levantado vi que as areias continuavam secas. Procurei então lembrar-me a que horas lhe limpara o tabuleiro pela última vez. Não me recordava de o ter feito nesse dia; olhei o relógio: eram quatro da tarde. Fui à cozinha, a comida estava toda no prato. Entretanto o Micky voltara às areias: não conseguira, apesar do esforço, verter mais que duas ou três gotas de urina. Contra os seus hábitos, saltou para dentro da banheira, arrastando-se desesperado no frio do esmalte, procurando assim aliviar-se. Como nada conseguisse, arrastava-se agora pelos mosaicos, e foi então que os seus olhos encolheram de medo e se meteram pelos meus, a suplicar auxílio - pois como podia viver-se com aquele nó cego a estrangulá-lo? Corri ao telefone, chamei um táxi. Como era conhecido na clinica, e invocara urgência, fui imediatamente atendido. O médico procurou acalmar-me, fez-lhe uma algaliação, colheu urina para análise, deu-lhe um pouco de soro, e recomendou que voltasse no dia seguinte; tratava-se de cálculos, coisa frequente na raça, muito susceptível, diria. Voltámos para casa, o Micky comeu um pouco, mas na manhã seguinte não pegou na comida, e quando procurou as areias foi a mesma exasperação: as urinas de as urinas de novo retidas. Voltei à clinica; nas três semanas que se seguiram voltaria lá muita vez; já não era só a retenção da urina o que lá me levava, o Micky deixara de se alimentar, e eu, por mais que quisesse, não conseguia meter-lhe na boca fosse o que fosse. Nem sequer a água, que procurava introduzir-lhe com uma seringa. Pedi o seu internamento, e que se tentasse a operação. Mas estava muito debilitado os pulmões atingidos. Ia vê-lo todos os dias, à noite, quando o serviço da clínica tinha acabado. E lembro-me bem da nossa despedida, o oiro dos olhos embaciado. Eu sempre soube que a beleza era o que havia de mais frágil sobre a terra.

Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2ª ed., 1992

 

 

publicado por arcadajade às 00:20
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8 comentários:
De Anónimo a 15 de Abril de 2004 às 22:30
A Jade agradece, LE., e retribui.jade
</a>
(mailto:jade@iol.pt)
De Anónimo a 12 de Abril de 2004 às 17:25
Lindo!
Mimos para a Jade.LE.
(http://oceanus-occidentalis.weblog.com.pt)
(mailto:oceanus-occidentalis@sapo.pt)
De Anónimo a 7 de Abril de 2004 às 02:18
Acho que sim, Amélia, que conheço o poema :-)jade
</a>
(mailto:jade@iol.pt)
De Anónimo a 7 de Abril de 2004 às 02:18
Lídia, o persa azul entra em vários poemas de Eugénio de Andrade. Aqui, ele conta a sua história. Há sempre essa ideia de que a beleza nos fere para depois partir. jade
</a>
(mailto:jade@iol.pt)
De Anónimo a 7 de Abril de 2004 às 02:16
Cineman, obrigada pela visita. Indicarei o teu blogue a alguns cinéfilos que conheço.



jade
</a>
(mailto:jade@iol.pt)
De Anónimo a 7 de Abril de 2004 às 00:03
Ocos todos os sons
(poema para um amor que eu tenho e se chama Jade)

E se a tarde assim fica
nevoenta parada
e de mim ausente não encontro
urdidas teiazinhas
que me seguram aos dias,
pode acontecer
que sarça escura ou fogo me cerquem
o olhar. Porque é tarde.
E ondula descompassado o ar que expiro
e são ocos todos os sons.

Então ela vem, asas, a gata
de borboleta no fundo
da pupila de ouro, vem
cravando no silêncio opaco os passos
e entra
no círculo da minha aflição.

Nenhum abrigo. Mas o toque
na palma da mão perdida -

E o vento sopra para longe as nuvens
e da noite ladram ao longe os cães.





Soledade Santos



Já tinhas lido este belo poema feito para ti, Jade?
amelia
</a>
(mailto:www.amelia.pais@netcabo.pt)
De Anónimo a 5 de Abril de 2004 às 03:23
Que texto lindo. Recordei velhos amigos felinos que me deixaram mais ou menos da mesma maneira...Lídia
(http://pontoafinal.zip.net)
(mailto:lidiadereis@yahoo.com.br)
De Anónimo a 5 de Abril de 2004 às 01:42
gosto muito do blog, já cá tinha vindo e acho que está mto bom! já agora aproveitava para dizer que estou a fazer um concurso para arranjar novos críticos, no meu blog sobre cinema, quem estiver interessado pode vir a www.cin7ma.blogspot.com
abraçocineman
</a>
(mailto:cin7ma@hotmail.com)

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