Segunda-feira, 22 de Março de 2004

O gato e a princesa

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O gato de rilke saltava-lhe para o colo nas tardes
de inverno, em duíno, enquanto ele escrevia
as elegias. Miava, como um anjo, e rilke traduzia
essa música em estrofes que, depois, recitava,
de janela aberta para o mar. A princesa de thurn e taxis,
então, chamava o gato; mas ele não ligava à dona,
e preferia saltar para o armário, onde ninguém
o ia apanhar. Rilke constipava-se; mas as elegias nada
contam do que se passava nessas tardes de duíno,
nem os incidentes domésticos, nem os problemas de
saúde. Têm, apenas, uma influência do gato: o seu
dorso negro, e os miados que dava, enquanto rilke
escrevia. Um gato pode, com efeito, inspirar poemas
de fôlego, como esses de duíno. É verdade que o
castelo já não existe; e que o vento já não entra
pela janela em que rilke se constipou. De resto, não
sei se é possível, ainda, alguém recitar poemas por
uma janela aberta, para cima do mar que tem a cor
da tempestade. Os deuses não moram, hoje, em nenhum
céu; nem os anjos gritam por intermédio de um gato A
razão, a lógica, o interesse, eis os motores do
quotidiano; e a única coisa que um gato pode fazer,
então, é passear no meio deles, de cauda encolhida,
sem nenhuma princesa de thurn e taxis a enxotá-lo,
de cima do armário, para não distrair o poeta.

 

 

Nuno Júdice, Cartografia de Emoções, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001

 

: poesia, júdice
publicado por arcadajade às 14:12
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5 comentários:
De Anónimo a 26 de Março de 2004 às 12:45
ai ai ai....! Jade gata marouta :o(,magoar
a dona....!ela que é um doce para ti... gata feia e gorda!
lol
bjs para as 2Diana
</a>
(mailto:dianamar@clix.pt)
De Anónimo a 24 de Março de 2004 às 20:18
Olá, Diana, tinhas que vir perguntar pela dieta?! Vai indo, vai indo. Mas hoje tirei um bife das costas da mão da minha dona, hehe! Ela manda-te beijos :-)jade
</a>
(mailto:jade@iol.pt)
De Anónimo a 24 de Março de 2004 às 20:15
LE, esse é um dos poemas preferidos da minha dona. Ela já o disse aí algures, na Arca. Diz que acha uma ternura esses diminutivos e familiarismos: o fazer "pipi", a "mijadinha", " a patinha"... Coisas de donas.
brigada pelas festinhas :-)jade
</a>
(mailto:jade@iol.pt)
De Anónimo a 23 de Março de 2004 às 12:12
Olá Jade!Miau!
então como vai a dieta? lol
DIANA
</a>
(mailto:diana.marcelino@sapo.pt)
De Anónimo a 22 de Março de 2004 às 20:21
"Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa."

Manuel Bandeira

Jade, pede desculpa à tua doneca. Ando com a cabeça na Lua.
Festinhas.
LE.
(http://oceanus-occidentalis.weblog.com.pt)
(mailto:oceanus-occidentalis@sapo.pt)

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