Quarta-feira, 24 de Maio de 2006

história de um sofrido filho da mãe

Alfredo Zalce
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


uma noite chegou à minha porta, pele e ossos molhado batido
assustado,
era um gato branco estrábico rabão.
deixei-o entrar alimentei-o foi mais um em casa
deu-me a sua carinhosa confiança,
até que um dia um fulano,
estacionado na minha garagem,
passou com o automóvel por cima do gato estrábico rabão.
levei imediatamente o que dele restava a um veterinário que disse:
"não há muito a fazer... dê-lhe estes comprimidos... tem a espinha
partida, mas já antes foi partida e de algum modo
conseguiu sarar, se sobreviver não voltará a andar, olhe
estas radiografias, deram-lhe um tiro,
veja estes pontos escuros,
são chumbadas enquistadas... além disso já teve cauda
e alguém lha cortou...»
levei o gato para casa, era um verão quente um
dos mais quentes em décadas, pus o gato no chão do quarto de banho,
dei-lhe água, os comprimidos, não queria comer nem beber,
eu mergulhava o dedo em água, humedecia-lhe a boca
e falava com ele, nesse verão não saí, passei muitos dias
no quarto de banho falando com o gato, acariciando-o suavemente,
ele olhava-me com aqueles olhos que se cruzavam
e os dias passavam.
uma tarde fez o seu primeiro movimento
arrastando-se com as patas dianteiras
(as traseiras não queriam mover-se)
chegou até ao canto onde lhe tinha preparado a cama
arrastou-se mais um pouco e deixou-se cair nela.
foi como o som de um clarim pressagiando a vitória possível,
ensurdecendo o quarto de banho, espalhando-se pela cidade.
então contei ao gato que também eu tinha passado um mau bocado, não tão mau como o dele,
mas bastante mau...
uma manhã ergueu-se, ficou imóvel sobre as patas e logo caiu de costas, olhava-me mansamente.
"és capaz" disse-lhe.
ele insistiu, levantava-se e tornava a cair, uma vez e outra,
finalmente
deu uns poucos passos, era a viva imagem de um bêbado
as patas recusavam-se a obedecer-lhe, caiu outra vez, descansou
e de novo se ergueu.
conhecem o resto da história: está melhor que nunca.
estrábico, quase sem dentes, mas recuperou a graça e aquele olhar
pícaro nunca o abandonou.
algumas vezes fazem-me entrevistas, querem saber
da minha vida, da minha literatura,
embriago-me, levanto nos braços o meu gato
estrábico, ferido com bala, atropelado duas vezes, rabão
e digo: "olhem, olhem isto!!!"

eles não entendem nada, insisto, nada de nada, perguntam
algo como: "reconhece influências de Celine?"
"não", ergo o meu gato, "por causa do que acontece, coisas
como esta, como esta!!!"
sacudo o meu gato, levo-o
para a luz enevoada de fumo e álcool, está sereno, ele sabe...

e nesse momento a entrevista termina.
às vezes sinto-me orgulhoso quando vejo as fotografias,
lá estou eu, lá está o meu gato, fomos
fotografados juntos,
também ele sabe que são ninharias, mas de algum modo ajudam-nos.


Charles Bukowski (tradução da arcadajade, a partir da versão espanhola de Esteban More)
publicado por arcadajade às 18:17
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