Quarta-feira, 27 de Abril de 2005

Felina

Galgam os gatos, guturais, gritando,

Nas gotejantes, glácidas goteiras,

As julietas maltesas namorando,

Em mios sensuais pelas trapeiras.

 

 

 

 

Chora, chapinha, chuviscando a chuva!

No deserto beiral do meu telhado,

Uma cinzenta graziela viúva

Contempla o seu «miau» envenenado...

 

 

Há lamentosos, lutulentos lances,

Por sobre a telha de Marselha, oblonga...

Sonhos, idílios, infernais romances,

Cavaleiros de Malta e barba longa!

 

Dum, conheço uma história muito triste,

Dum que lembrava o D. João doutrora,

Sempre com o bigode e a cauda em riste...

Mas era longo referi-la agora.

 

Pelos sítios escusos dos telhados

Há gatas sem pudor fazendo visitas,

Traições, banzés, focinho arranhado,

Baralhas de saloios e fadistas.

 

Ouvindo-os, entre insónias horrorosas,

Paroquiais, pesados pesadelos,

Guloso, gloso gloriosas glosas,

E faço caracóis com os cabelos!...

 

 

 

 

 

António Feijó, Poesias Completas, 1.ª Edição, Edições Caixotim, Porto, 2004

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publicado por arcadajade às 00:04
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