Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

Gatos e mais gatos

 

Não há muito tempo, ela não estava em casa quando fomos para a cama. Não entrou durante a noite. No dia seguinte, nada de gata cinzenta. Nessa noite, uma vez que gata cinzenta não estava na posição de prestígio, gata preta ocupou-a.
No dia seguinte, liguei todos os mecanismos de defesa: bem, era só uma gata, etc. E fiz as coisas rotineiras: Alguém viu uma gata cinzenta meia siamesa com a barriga esbranquiçada e manchas pretas? Ninguém tinha visto.
(…)
Ao fim de quatro dias, gata cinzenta apareceu, veio correndo pelos muros. Talvez tivesse sido roubada e tivesse fugido; talvez tivesse ido visitar alguma família que a admirasse.
Gata preta não ficou contente de a ver.
De tempos a tempos alguém em casa ralha com as gatas, quando pensa que ninguém está a ouvir: Palermas, idiotas, por que é que não são amigas? Pensem no que perdem, que bom que seria!
Na semana passada pisei o rabo de gata cinzenta sem querer; ela soltou um berro, e gata preta saltou para matar: reflexo instantâneo. Gata cinzenta tinha perdido favores e protecção, assim pensou gata preta, e tinha chegado o seu momento.
Pedi desculpa a gata cinzenta, acariciei as duas. Aceitaram estas atenções, olhando uma para a outra todo o tempo, e seguiram os seus caminhos separados para os seus separados pires, os seus separados lugares para dormir. Gata cinzenta rebola-se na cama, boceja, lava-se, ronrona: gata favorita, gata patroa, gata rainha pelo direito da força e da beleza.
Gata preta tende a acomodar-se agora — não há gatinhos, de momento — num canto do vestíbulo onde fica de costas para a parede, e pode vigiar os invasores que cheguem do jardim, e espiar os movimentos de gata cinzenta, escada abaixo, escada acima.
Quando gata preta dormita, olhos semi fechados, torna-se no que realmente é: o seu ser verdadeiro, sem a devoção atarefada a que a maternidade a obriga. Pequeno animal sólido e macio, sentada, uma gata preta, preta com o seu nobre perfil, curvo e distante.
Gato das Sombras! Gato plutónico! Gato de alquimista! Gato da meia-noite!

Mas gata preta não está hoje interessada em cumprimentos, não quer ser incomodada. Faço-lhe festas, ela arqueia levemente as costas. Solta um meio ronrom, num agradecimento polido ao alienígena, volta a olhar para o mundo escondido atrás dos seus olhos amarelos.

 

Doris Lessing, Gatos E Mais Gatos, trad. de Mª Isabel Barreno, Ed. Cotovia, Lisboa, 1995

 

 

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publicado por arcadajade às 20:33
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