Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

Pussikaten


                                                                                            foto de Alex Howitt 

O gato está a ficar velho.
 
Até há poucos meses
até a própria sombra
lhe parecia uma coisa do outro mundo.
 
Os seus bigodes eléctricos
detectavam tudo:
 
escaravelho,
mosca,
mata-moscas,
tudo tinha um valor específico.
 
Agora vive
agachado ao borralho.
 
Que o cão o fareje
ou os ratos lhe mordam a cauda
são factos sem importância nenhuma para ele.
 
O mundo passa sem pena nem glória
Através dos seus olhos semicerrados.
 
Sabedoria?
Misticismo?
Nirvana?
Tudo isso certamente
e sobretudo
tempo decorrido.
 
O dorso branco de cinza
indica-nos que ele é um gato
que se encontra para lá do bem e do mal.


                                               Nicanor Parra, tradução da arcadajade

publicado por arcadajade às 18:40
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Domingo, 18 de Novembro de 2012

Todo o nada que és é teu

 

                                                            Fotografia de Igor Zenin

publicado por arcadajade às 16:06
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Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

GATO INGRATO

 

 fotografia de Annick Gérardin

 

Os gatos eram como gatos,
Os cães como cães
E os homens como os homens.

 

Os gatos eram como gatos,
Os cães um pouco como cães
E um pouco como o homem,
E o homem era como o homem.

 

Os gatos eram como gatos,
Os cães eram como o homem
E os homens como cães.

 

Os gatos estavam preocupados,
Os cães não se ralaram,
As pessoas eram cães
E os cães não tinham identidade.

 

O mal-agradecido do gato
Foi-se embora, sem mais nem menos.

 

Yalvaç Ural (Turquia)

 

 

publicado por arcadajade às 16:59
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Gatografias

'Gatografias', de Susana Neves, não cumprem uma função documental nem retratam seres inventados, a caminho de um bestiário surreal. São mais desertos de gatos, cordilheiras e florestas, descobertos num gato sem cenário.

 

 

 

 

 

publicado por arcadajade às 11:01
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Domingo, 22 de Novembro de 2009

A gata Sabina

 

 

Fotografia encontrada em tempo contado

 

publicado por arcadajade às 21:49
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Sábado, 10 de Outubro de 2009

que nos olha


 Colette

 

Um gato é aquele ser impassível que, sem cerimónias, pode instalar-se – a afirmar direitos e intimidades – exactamente sobre o caderno onde o dono está a escrever; mas é também aquele que é capaz de, distraidamente, se passear por cima de montes de papéis espalhados sobre uma secretária sem que o mais pequeno desvio se note depois da sua passagem. (...)

 

O gato é também aquele ser que nos olha com intensidade mas sem expressão, de forma que nas suas pupilas, mais ou menos dilatadas, apenas podemos descobrir um inteligente espelho de nós próprios e do mundo por trás de nós, ao mesmo tempo que no seu brilho encontramos a lampadazinha de que fala Adams, que devassa os caminhos para os tesouros insuspeitados existentes no nosso íntimo.

 

Maria Cândida Zamith Silva, A Figura do Gato como Capa para Considerações mais Profundas: Lope de Vega, Hoffman, T.S. Eliot

publicado por arcadajade às 09:22
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Domingo, 6 de Setembro de 2009

GATO

foto retirada daqui

 

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar?

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

 

publicado por arcadajade às 19:19
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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

...

publicado por arcadajade às 21:36
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Poema do Gato


 

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão

 

publicado por arcadajade às 15:38
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Domingo, 31 de Agosto de 2008

Les Chats

 
 
Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté,
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin;

 

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

Charles Baudelaire, As Flores do Mal, Relógio d'Água, 2003
 
 

                       OS GATOS

Os apaixonados fervorosos e os sábios austeros
Amam de igual modo, chegada a maturidade,
Os gatos, poderosos e doces, orgulho do lar
E tal como eles, friorentos e sedentários.

Amigos do saber e do prazer, os gatos
Procuram o sossego e o horror das sombras.
Erebo tê-los-ia tomado como mensageiros fúnebres
Se fosse possível dobrar-lhes o orgulho à servidão.

Assumem quando sonham nobres atitudes,
Grandes esfinges alongadas em funda solidão,

Parecem dormir um sono sem fim.

Há setas de luz em seus rins fecundos

E poeira de ouro, areia fina,
Estrelando vagamente as suas místicas pupilas.

 

Tradução da arcadajade
 

 

publicado por arcadajade às 14:30
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