Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

Ritsos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Emile Chambon, La clé des songes

 

 

A MEIO DE UM POEMA DE RITSOS

 

Aqui até os gatos são diferentes,
bravos, pacientes, mudos,
não esfregam o seu focinho no nosso cotovelo,
ficam-estáticos nos nossos joelhos e estudam
estudam a morte,
estudam a tristeza,
estudam a vingança, a determinação,
estudam o silêncio e o amor,
estudam a vida dentro dos nossos olhos,
os não-acarinhados,
os bravos gatos
os silentes gatos de Macrónissos.

E esta lua de Agosto que pende sobre nós
é como a grande palavra que não foi dita
marmorificada na garganta da noite.

 

 

Giánnis Ritsos, tradução de Custódio Magueijo em Antologia, Ed. Fora do Texto, 1993

 

 


publicado por arcadajade às 09:05
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Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

como um haiku

 

 

Gatinho recém-nascido
abandonado à beira do caminho
pequeno e pulsante como un haiku

Levaram-no para casa
chamaram-lhe Bashô

 

poema inédito de Manuel Silva-Terra

 

 

publicado por arcadajade às 16:44
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Domingo, 29 de Novembro de 2009

As cigarras vão morrer

Renata Moise

 

No jardim todo branco

vem defecar

um gato vadio


Masaoka Shiki, em As Cigarras Vão Morrer, Haiku, Uma Antologia, selecção, versões e notas de Manuel Silva-Terra, 2008

 

publicado por arcadajade às 21:57
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Terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Pop

blake

 

Peter Blake, The Owl and the Pussycat, 1981


 

 

I

The Owl and the Pussy-cat went to sea
    In a beautiful pea green boat,
They took some honey, and plenty of money,
    Wrapped up in a five pound note.
The Owl looked up to the stars above,
    And sang to a small guitar,
'O lovely Pussy! O Pussy my love,
      What a beautiful Pussy you are,
          You are,
          You are!
What a beautiful Pussy you are!'

 

II

Pussy said to the Owl, 'You elegant fowl!
    How charmingly sweet you sing!
O let us be married! too long we have tarried:
    But what shall we do for a ring?'
They sailed away, for a year and a day,
    To the land where the Bong-tree grows
And there in a wood a Piggy-wig stood
    With a ring at the end of his nose,
          His nose,
          His nose,
With a ring at the end of his nose.

 


III

'Dear pig, are you willing to sell for one shilling
    Your ring?' Said the Piggy, 'I will.'
So they took it away, and were married next day
    By the Turkey who lives on the hill.
They dined on mince, and slices of quince,
    Which they ate with a runcible spoon;
And hand in hand, on the edge of the sand,
    They danced by the light of the moon,
          The moon,
          The moon,
They danced by the light of the moon.

 

Edward Lear, Nonsense Poetry and Art

publicado por arcadajade às 21:13
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Domingo, 6 de Setembro de 2009

GATO

foto retirada daqui

 

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar?

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

 

publicado por arcadajade às 19:19
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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

É noite: sobre os telhados

É noite: sobre os telhados de novo
Se perde o rosto redondo da Lua.
Ele, o mais ciumento de todos os gatos,
Olha enciumado para todos os amantes,
O pálido e gordo «Homem da Lua».
Arrasta o seu cio furtivo pelos cantos mais escuros,
Espreguiça-se encosta-se a janelas entreabertas,
Como um frade lascivo e anafado anda
De noite, atrevido, por caminhos proibidos.

Friederich Nietzsche in Assinar a Pele, Antologia de Poesia Contemporânea sobre Gatos, organização de João Luís Barreto Guimarães, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

 

publicado por arcadajade às 20:40
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Dois gatos na cidade

 

Os gatos de Lisboa

 

Os gatos de Lisboa são altos,

esguios bem falantes.

Sabem quase tudo de história e

um pouco de geografia.

 

De noite caçam gatas

e de dia companhia

entre o lixo da cidade.

Não são assim tão pardos

como dizem as histórias.

 

Pelo contrário, andam

engravatadinhos, ar galante e

de quem não parte uma unha.

Se lhes falarem em

sardinhas levantam

altivos os bigodes -

não são desses gatos

farruscos aos pés

das varinas. Têm classe!

 

Mas mostrem-lhes um

banco de jardim ao sol.

E miau.

 

R. Joanna

 

 

cidade à parte

 

os gatos da cidade de lisboa
são raros de encontrar, discretos
milagres do langor quotidiano,
atentos na sua calma
à alheia agitação citadina.

Interessam-lhes as árvores
os pássaros e às vezes
olham os rostos das pessoas.

alguns deixam-se aproximar
gostam até de nós, de nós
que gostamos deles
e queríamos encontrá-los
mais vezes
pelos passeios e jardins
mas eles só se deixam
encontrar por acaso.

 

sete-sóis

 

 

publicado por arcadajade às 16:26
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Poema do Gato


 

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


António Gedeão

 

publicado por arcadajade às 15:38
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Domingo, 31 de Agosto de 2008

Les Chats

 
 
Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté,
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin;

 

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

Charles Baudelaire, As Flores do Mal, Relógio d'Água, 2003
 
 

                       OS GATOS

Os apaixonados fervorosos e os sábios austeros
Amam de igual modo, chegada a maturidade,
Os gatos, poderosos e doces, orgulho do lar
E tal como eles, friorentos e sedentários.

Amigos do saber e do prazer, os gatos
Procuram o sossego e o horror das sombras.
Erebo tê-los-ia tomado como mensageiros fúnebres
Se fosse possível dobrar-lhes o orgulho à servidão.

Assumem quando sonham nobres atitudes,
Grandes esfinges alongadas em funda solidão,

Parecem dormir um sono sem fim.

Há setas de luz em seus rins fecundos

E poeira de ouro, areia fina,
Estrelando vagamente as suas místicas pupilas.

 

Tradução da arcadajade
 

 

publicado por arcadajade às 14:30
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

O Mocho e a Miau

 

 

 

 
Edward Lear, tradução de José Antônio Arantes

 

 

 

 

1

O mocho e a Miau se foram no mar
Num bonito barco verde-ervilha,
Levando mel e dinheiro a granel
Em notas miúdas numa vasilha.
O mocho olhou para os astros no céu
E cantou ao som de uma guitarra:
“Oh, bela Miau! Oh, Miau, fiel,
És uma gata muito rara,
Muito rara,
Muito rara!
 
2
 
A Miau disse ao Mocho: “ave, que colosso!
Cantas com maviosa elegância!
Ah, casemos, esperar mais não podemos!
Mas onde encontrar uma aliança?”
Mar afora, por um ano e uma hora,
Deram na terra onde dão os naguis
E num bosquim viram um bacorim
De anel na ponta do nariz,
Do nariz,
Do nariz,
De anel na ponta do nariz.
 
3
 
“Caro leitão, venderias por um tostão
teu anel?” O leitão respondeu: “Venderia.”
Levaram embora o anel e sem demora
Um peru da colina os casou no outro dia.
Jantaram picadinho e um coquinho,
Comendo com garfolher sem-par;
E de braços dados, à beira-amados,
Os dois dançaram ao luar,
Ao luar,
Ao luar,
Os dois dançaram ao luar.

 

publicado por arcadajade às 03:52
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