Emile Chambon, La clé des songes
A MEIO DE UM POEMA DE RITSOS
Aqui até os gatos são diferentes,
bravos, pacientes, mudos,
não esfregam o seu focinho no nosso cotovelo,
ficam-estáticos nos nossos joelhos e estudam
estudam a morte,
estudam a tristeza,
estudam a vingança, a determinação,
estudam o silêncio e o amor,
estudam a vida dentro dos nossos olhos,
os não-acarinhados,
os bravos gatos
os silentes gatos de Macrónissos.
E esta lua de Agosto que pende sobre nós
é como a grande palavra que não foi dita
marmorificada na garganta da noite.
Giánnis Ritsos, tradução de Custódio Magueijo em Antologia, Ed. Fora do Texto, 1993
Gatinho recém-nascido
abandonado à beira do caminho
pequeno e pulsante como un haiku
Levaram-no para casa
chamaram-lhe Bashô
poema inédito de Manuel Silva-Terra
Renata Moise
No jardim todo branco
vem defecar
um gato vadio
Masaoka Shiki, em As Cigarras Vão Morrer, Haiku, Uma Antologia, selecção, versões e notas de Manuel Silva-Terra, 2008
Peter Blake, The Owl and the Pussycat, 1981
| I |
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The Owl and the Pussy-cat went to sea
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| II |
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Pussy said to the Owl, 'You elegant fowl!
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| III |
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'Dear pig, are you willing to sell for one shilling
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foto retirada daqui
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar?
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Alexandre O'Neill
É noite: sobre os telhados de novo
Se perde o rosto redondo da Lua.
Ele, o mais ciumento de todos os gatos,
Olha enciumado para todos os amantes,
O pálido e gordo «Homem da Lua».
Arrasta o seu cio furtivo pelos cantos mais escuros,
Espreguiça-se encosta-se a janelas entreabertas,
Como um frade lascivo e anafado anda
De noite, atrevido, por caminhos proibidos.
Friederich Nietzsche in Assinar a Pele, Antologia de Poesia Contemporânea sobre Gatos, organização de João Luís Barreto Guimarães, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Os gatos de Lisboa
Os gatos de Lisboa são altos,
esguios bem falantes.
Sabem quase tudo de história e
um pouco de geografia.
De noite caçam gatas
e de dia companhia
entre o lixo da cidade.
Não são assim tão pardos
como dizem as histórias.
Pelo contrário, andam
engravatadinhos, ar galante e
de quem não parte uma unha.
Se lhes falarem em
sardinhas levantam
altivos os bigodes -
não são desses gatos
farruscos aos pés
das varinas. Têm classe!
Mas mostrem-lhes um
banco de jardim ao sol.
E miau.
cidade à parte
os gatos da cidade de lisboa
são raros de encontrar, discretos
milagres do langor quotidiano,
atentos na sua calma
à alheia agitação citadina.
Interessam-lhes as árvores
os pássaros e às vezes
olham os rostos das pessoas.
alguns deixam-se aproximar
gostam até de nós, de nós
que gostamos deles
e queríamos encontrá-los
mais vezes
pelos passeios e jardins
mas eles só se deixam
encontrar por acaso.
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão
Parecem dormir um sono sem fim.
Há setas de luz em seus rins fecundos
E poeira de ouro, areia fina,
Estrelando vagamente as suas místicas pupilas.
Tradução da arcadajade

Edward Lear, tradução de José Antônio Arantes
1
O mocho e a Miau se foram no mar
Num bonito barco verde-ervilha,
Levando mel e dinheiro a granel
Em notas miúdas numa vasilha.
O mocho olhou para os astros no céu
E cantou ao som de uma guitarra:
“Oh, bela Miau! Oh, Miau, fiel,
És uma gata muito rara,
Muito rara,
Muito rara!
2
A Miau disse ao Mocho: “ave, que colosso!
Cantas com maviosa elegância!
Ah, casemos, esperar mais não podemos!
Mas onde encontrar uma aliança?”
Mar afora, por um ano e uma hora,
Deram na terra onde dão os naguis
E num bosquim viram um bacorim
De anel na ponta do nariz,
Do nariz,
Do nariz,
De anel na ponta do nariz.
3
“Caro leitão, venderias por um tostão
teu anel?” O leitão respondeu: “Venderia.”
Levaram embora o anel e sem demora
Um peru da colina os casou no outro dia.
Jantaram picadinho e um coquinho,
Comendo com garfolher sem-par;
E de braços dados, à beira-amados,
Os dois dançaram ao luar,
Ao luar,
Ao luar,
Os dois dançaram ao luar.